Ao longo de vários anos como ouvinte de rap internacional, Big Sean chegou aos meus ouvidos aqui e ali através de boas participações em músicas de caras mais famosos e, sinceramente, nunca me saltou os olhos – ou ouvidos – por não parecer o tipo de artista que tinha muito a acrescentar na cena musical da gringa. E bom, talvez ele não tenha, mesmo. Em “Detroit 2”, Big Sean reúne uma porrada de artistas nascidos em Detroit, nos EUA, para fazer uma ode à cidade onde nasceram, num álbum longo e cansativo demais.

Para começo de conversa, o novo material do rapper Big Sean tem inacreditáveis 21 faixas, totalizando uma hora e lá vai bolinha de duração. Ao lado de nomes como Ty Dolla $ing, Dwele, Anderson .Paak, Young Thug, Lil Wayne e grande elenco, o disco aborda temas como raízes, influências, dificuldades no ponto de partida de uma carreira e todos esses assuntos que um fã de hip hop já está bem familiarizado. E não dá para negar, tem faixas bem legais em “Detroit 2”, mas o verdadeiro desafio é chegar nelas. A faixa “FEED”, por exemplo, é ótima e muito divertida, mas já na décima sexta música você já está cansado de ouvir o Big Sean acelerando e desacelerando o flow, que é a única coisa que ele sabe fazer, aparentemente.

O álbum abre com “Why Would I Stop“, uma boa introdução que sintetiza bem o que vai rolar dali para frente, basicamente tratando sobre o protagonista – Big Sean – enchendo o peito de confiança para falar sobre o lugar de onde veio e o que conquistou até ali. Mesmo com uma linha meio sem graça (“esse é o antídoto, o flow ‘cura-câncer’, que para a pandemia…”), o beat é divetido e mantém a qualidade do som até o fim.

Lucky Me“, em seguida, já derruba o álbum de uma vez só, uma verdadeira rasteira na boa atmosfera da primeira música. Essa segunda é chata, apresenta um Big Sean com o ego inflado até demais, como se não soubesse a hora de parar. A música podia acabar ali em 2 minutos e pouco, mas ele fica falando sem parar até te tirar a paciência. Além disso, a faixa fala sobre uma doença no coração que, aos 19 anos, ele supostamente tratou com medicina alternativa? Bom, como defendedor da ciência, foi meio incômodo ouvir esse relato (se é verdade ou não, não me importa).

Deep Reverence“, “Wolves” e “Body Language” formam um dos momentos mais consistentes aqui. São três músicas que não chegam a ser ótimas, mas contam com ótimas participações de Nipsy Hissle (RIP), Post Malone e Jhané Aiko respectivamente, e embora Post Malone entregue mais do mesmo em “Wolves”, o cara sabe como fazer uma ponta legal. Depois dessas, entra “Story by Dave Chappelle“, a primeira de três faixas que apresentam moradores icônicos de Detroit contando histórias sobre suas vidas na cidade. Todas as três são muito boas, inclusive.

Logo, “Harder Than My Demons” e “Everthing That’s Missing” são outras duas faixas que só parecem encher linguiça. Sem graça, a segunda ainda conta com uma linha muito ruim que diz “eu vou excluir o Twitter e seguir minha intuição”… Seguir… Twitter… Enfim. Ele ainda fala sobre fazer diferença enquanto músico, coisa que passa logo de ser verdade. Sério, se o Big Sean não existisse, o mundo da música seria exatamente o mesmo.

ZTFO” chega depois e é uma das minhas favoritas nessa bagunça. Além do beat de trap afiadíssimo, a música tem uma participação tímida do Travis Scott e uma linha bem legal do Big Sean (“se nós não temos a mesma visão, não podemos trocar contatos”, que talvez soe melhor em inglês). “Guard Your Heart” é outra música legal, talvez melhor que a anterior, tendo como base um piano e bateria quase num clima de jazz, mas a participação do Earlly Mac me incomodou porque eu achei que fosse o Chance the Rapper na primeira vez que ouvi a música.

De “Respect It” até “Time In“, sinceramente, só tem faixa que não merece atenção. Talvez lançadas como singles, sei lá, eu até pudesse curtir mas, dentro desse álbum maçante, impossível. São um vácuo inútil que não me fez sentir nada. Aliás, minto: em “Lithuania“, uma linha só reforçou como Big Sean parece um Drake que está preso entre 2013 e 2015. “Don’t talk to me like I’m not me“, dá para ouvir o Drake soltando essa frase em literalmente qualquer faixa.

Quando o álbum não parecia mais ter salvação, “Story of Erykah Badu“, a segunda de três “histórias sobre Detroit”, renova minhas forças. Sério, essa mulher é perfeita, tudo que ela fala é tão bonito, sabe? Eu nem vou dar spoiler, procurem – pelo menos – essa faixa para curtir a doçura que é Erykah Badu. Em seguida, “FEED” também é um som legal, mas “The Baddest” estraga tudo com o beat mais insuportável do disco. Os samples de sopro dessa faixa são a coisa mais chata até aqui.

Don Life” aparece e tornar o álbum mais legal. O sample de “Human Nature” do Michael Jackson é inconfundível, torna a música muito divertida e, a participação do Lil Wayne é uma das melhores que ouço do cara em vários anos. Realmente uma faixa que chega para animar “Detroit 2”. O problema é a faixa seguinte: “Friday Night Cypher” é muito, muito ruim. Chata demais, longa demais, com vários artistas que a gente não dá a mínima, puts…

Digo, eu entendo o conceito do álbum: essa grande homenagem a Detroit, e a cypher sendo uma forma de trazer nomes novos para o álbum de um artista relativamente grande etc, mas depois de dezoito músicas, simplesmente não dá para engolir uma décima nona com quase 10 minutos de duração, ainda mais tendo uma participação chatíssima do Eminem. O Big Sean realmente achou essa uma boa ideia? Esse pensa que é o recipiente certo para esse projeto? É audacioso, mas parece um tiro que sai pela culatra. Se alguém disser que consegue ouvir esse álbum de cabo a rabo, sem parar pelo menos seis vezes para tomar uma água, tá mentindo.

Finalmente, “Story by Stevie Wonder” é um momento gigantesco do trabalho. O homem fala por si só, e aqui ele conta sobre sua vida antes da fama, sobre Deus e como era ser cego e negro enquanto criança, e ainda relata um sonho que teve antes de ser descoberto, onde ouvia uma música dele tocando no rádio. Não é que deu o sonho se realizou mesmo? Depois dessa, “Still I Rise” fecha o álbum com uma espécie de “6PM In New York“, que encerra o álbum “If You’re Reading This It’s Too Late“, do Drake. Só que a versão do rapper canadense, de 5 anos atrás, é bem melhor.

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