Desde o lançamento do já clássico “Castelos & Ruínas” (2016), o carioca Abebe Bikila, mais conhecido como BK’, trilha uma das carreiras de maior sucesso entre os nomes da nova escola do rap nacional. Em seu terceiro álbum de estúdio, chamado “O Líder em Movimento“, apesar de não se reinventar, BK’ ainda nos traz um material de ótima qualidade, graças também a sua grande parceria com o produtor JXNV$.

Com 10 faixas e pouco menos de 40 minutos de duração, “O Líder em Movimento” é um álbum de estética minimalista, com faixas de título curto e que dizem pouco sobre seu conteúdo. É dar play e mergulhar numa experiência rápida e satisfatória, com BK’ caminhando em sua zona de conforto no sentido estético e sonoro, mas sem nunca entregar letras menos que muito boas.

BK’ não é mesmo o tipo de artista que gosta de entregar trabalhos medíocres e, mesmo quando não esteve em melhor forma, a presença dele como rimador, além da voz sempre bem aplicada, faz parecer que só de estar presente na música, ela já valesse a pena. Ele mesmo defende, em “Visão“, o seu direito de errar às vezes: “Desperdiça água, desperdiça comida, vem me julgar se eu desperdiçar uma linha“.

BK – Rapper Nacional.

O álbum começa com “Movimento“, uma boa faixa introdutória que é a melhor na primeira metade do LP. Aqui, BK’ discorre sobre como as miras estão apontadas para as pessoas de pele preta e seus heróis, e se mostra muito atual na linha “vamo derrubar o nome dessas ruas, dessas estátuas, botar herói de verdade nessas praças“, onde faz referência aos protestos raciais ao redor do mundo, que derrubou estátuas de escravocratas.

Bloco 7“, a segunda faixa do disco, ainda é bem legal, mas a parte da Ainá Garcia é um pouco desconfortável, como se não precisasse estar ali. Fora que para alguém que acompanha o trabalho do artista há tempo, parece que ele está batendo numa tecla antiga aqui, mas não deixa de ser uma boa música. Em seguida, “Porcentos 2” faz uma rápida referência à faixa anterior, onde ele diz “sempre comparamos com futebol ou droga, foi o que vimos de onde viemos, essa foi nossa escola“, depois de ter citados vários times do futebol carioca num jogo de palavras.

Já citada anteriormente, “Visão” é seguida por “Amor“, e juntas são o momento mais fraco do disco todo. Além de uma linha quase risível nessa última (“nossa conexão é tão fraca e esse mundo é tudo wi-fi“), as duas parecem descartes do primeiro álbum do BK’, com beats e atmosfera que poderiam muito bem estar no “Castelos & Ruínas”, mas como se não fossem boas o bastante para ter entrado no corte final – e não são mesmo.

Depois de uma primeira metade toda produzida por Jonas (JXNV$), parceiro de longa data e também membro do Bloco 7, a faixa “Poder” é a primeira com produção de diferente assinatura, dessa vez da dupla DKVPZ. Na verdade, essa tem uma produção que levanta o disco e prepara para uma segunda metade bem melhor, embora não fuja em nada da proposta final do projeto. Aqui, BK repete uma ideia anteriormente cantada no álbum, onde refere a si mesmo como “merda circulada por moscas“, numa espécie de momento de insegurança do eu lírico.

Seguindo para “Megazord“, o álbum mantém a qualidade elevada com outro beat sensacional, de novo do Jonas. Ele também produziu “Pessoas“, que conta com um sample espetacular de “Minha Gente“, do Erasmo Carlos. O resultado aqui é finíssimo, um dos pontos mais altos do disco.

Lugar“, a penúltima, também apresenta uma produção impecável e beat grandioso, numa música mais agressiva e com um bom refrão, que fala sobre conquistas que BK’ almeja. Na linha “cansamos de cuidar dos filhos deles enquanto matam os nossos“, é impossível não lembrar do caso recente de uma criança preta de 5 anos, Miguel, que foi deixado no elevador pela patroa da mãe, e acabou morto.

Finalizando com “Universo“, uma canção contemplativa ao mesmo tempo que alto astral, BK’ encerra o disco da maneira certa, com talvez a melhor música aqui. Depois de passar por dores, insegurança e traçar a violência que os seus sofrem, ele afirma: “Eu ainda tenho muito pra aprender“. O beat perfeito produzido por Nansy Silvvs dá um ponto final que te deixa com vontade de ouvir o disco todo de novo. Sem dúvida, um dos lançamentos mais legais do ano. BK’ é mesmo o nome mais forte do rap nacional agora, eu diria.

BK’ – O Líder em Movimento.

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