Até a virada do século, o Mr. Niterói já havia conquistado espaço e admiração dentro do cenário musical brasileiro. Seus trabalhos com SpeedFreaks e Dj Rodriguez, inúmeras participações com artistas renomados, além de sua entrada no Planet Hemp, uma das maiores bandas do país, proporcionou um currículo de peso ao rapper.

Não satisfeito, em 2004 Gustavo Black Alien lança seu primeiro disco solo, “Babylon By Gus – Vol. 1: O Ano do Macaco”, assinado com a gravadora Deck Disc e produzido por Alexandre Basa. Esse viria a ser um dos maiores discos do rap nacional e da música brasileira.

A referência ao clássico “Babylon By Bus“, de Bob Marley, é nítida no título do álbum, o que sintetiza também a forte influência reggae do artista. Já o subtítulo é uma afronta ao termo racista “macaco”, designado a pessoas pretas. Black Alien faz uma ligação ao ano Chinês de 2004, que tem como proteção o horóscopo local do Macaco, afirmando então que aquele seria o seu ano.

É realmente difícil interpretar e sentir todas as nuances do pensamento de Gustavo, tão quanto é impossível não se identificar com sua poesia. Empatia não falta e revolta temos de sobra, nas 12 faixas desse incrível trabalho. Não há como separar a essência de Black Alien da “música” em sua própria etimologia.

Música por música

O disco começa com uma apresentação de si mesmo: “Mister Niterói” conta um pouco sobre a personalidade e vivência do rapper, sempre demonstrando sua integridade e raiz suburbana, além de apresentar uma de suas características mais notáveis, que é a mistura linguística.

“Caminhos do Destino” começa homenageando grandes nomes da cultura e arte mundial, mencionando também Mauro Mateus, o grande rapper Sabotage, morto há apenas um ano na época. Black continua demonstrando sua força diante das traições que o rodeia e provando que sempre se mantem de pé, sem precisar de grandes sacrifícios como no passado, como na referência a sua época no Planet Hemp, onde ele diz em “Queimando Tudo”: “Se é o caso, queimo a casa e me livro do rato”, e agora em “Caminhos do Destino” diz: “Não queimo mais a casa para me livrar do rato”.

A música homônima ao título do álbum, “Babylon By Gus” com certeza é uma das mais emocionantes e marcantes, com influências de música clássica, blues e trompetes de jazz. A letra traz revolta e melancolia, com narrativas tristes e imersivas, além de mostrar a importância da poesia e do Rastafári na vida de Gustavo.

O álbum segue com “U-Informe“, música pesada e com distorções fortes de guitarra, trazendo à tona sua veia rock ‘n roll. Com um flow fluido e enérgico, mantém suas críticas à sociedade, além da narrativa crua e quase jornalística em algumas partes.

Temos então o primeiro love song do álbum, “Como Eu Te Quero“. Gustavo mostra aqui, mais uma vez, sua incrível versatilidade para a composição, trazendo uma música leve, descontraída e rimas que retratam o cotidiano de muitos casais suburbanos. Foi um grande sucesso nas rádios de todo o país.

Umaextrapunkprumextrafunk” – o título da música é alto explicativo… Essa faixa mostra um pouco dos seus anos no Planet Hemp, tanto a influência da banda na sua veia artística, quanto o próprio motivo para o escolherem como novo integrante. Vemos novamente suas fortes críticas à mídia, alienação e corrupção dentro de todas as áreas da sociedade… Uma letra punk em uma música funk.

Sem dúvida uma das músicas mais pesadas do álbum, “Estilo do Gueto” traz forte influência de Racionais, narrativa crua e muito violenta sobre a sangrenta realidade dos subúrbios e favelas do nosso país. “Justiceiros desfilam, fuzilam qualquer um, conselho que lhe dou é não matar por aí…” – Quer algo mais real que isso?

Primeiro de Dezembro“: uma música que funcionaria fácil como um filme, e infelizmente uma história mais comum do que gostaríamos de acreditar, a vida de um jovem ao entrar no crime. Gustavo surpreende de novo com sua narrativa impecável, nos colocando na pele da vivência criminosa, dando também uma perspectiva empática ao leitor.

Ao meu ver, a música mais forte do álbum junto de “Babylon By Gus”: “Na Segunda Vinda” é a música que, talvez, melhor represente o mundo único que existe dentro da mente de Black Alien. Conspirações, Fé Rastafári e insatisfação com grandes líderes e organizações mundiais. Tudo isso só confirma a riqueza cultural que Gustavo possui. O refrão desta música possui uma conexão simplesmente genial entre dois versos, dando uma função dupla a mesma palavra.

Oh! O seu time campeão, sua escola na avenida
Irmãs e irmãos, talvez numa segunda vinda
O povo não estará ao Deus-dará
…”

Aqui podemos notar que “numa segunda vinda” pode tanto significar a volta de Jesus Cristo, quanto a reencarnação de nossos “irmãs e irmão”.

Perícia na Delicia não é a música que mais chama atenção no álbum, sendo ao meu ver a menos marcante e contundente, mas isso não tira sua importância e criatividade. Vemos aqui uma letra com intuito mais popular e comercial, e que com certeza cumpriu muito bem seu objetivo e alcançou o gosto do público, tocando por muito tempo nas rádios e ainda se mantem na playlist de muitos fãs do rap nacional.

Na faixa que vem como um monólogo dub, marcado pela veia Ragga de Black Alien, “America 21” é um retrato do nosso século e de si mesmo, contados pela voz de Gustavo. Uma música com metáforas rebuscadas e psicodélicas, referências a cultura pop e a história recente de nosso continente. Sempre muito crítico e culto, vemos o rapper caminhar pelas “Veias Abertas da America Latina” (livro do jornalista uruguaio Eduardo Galeano).

O álbum tem sua conclusão com “From Hell do Céu“, canção com belíssimo instrumental, batida forte e uma bela melodia de cordas, que nos guia por um refrão calmo e grandioso com fundo de metais sobrepostos. Música extremamente imersiva, a letra fala um pouco sobre a vivência do trabalhador brasileiro e as batalhas reais que todos passamos. Referência memorável à tribo dos Cintas-largas que sempre lutaram bravamente por suas terras, principalmente no Massacre do Paralelo 11, em 1963.

Gustavo de Almeida Ribeiro, o Black Alien.

Conclusão

A produção incrível de Alexandre Basa casou perfeitamente com a força visceral e versátil do rapper, tornando a obra extremamente concreta. As influencias multiculturais de Black Alien como cinema, rock, ragga, música clássica e tantas outras, podem ser notadas em cada beat e sample tão bem selecionados.

Black Alien realmente veio de outro planeta, alguém que sempre buscou um espaço no mundo, proporcional à imensidão que existe em sua mente. Realmente difícil não se sentir frustrado dessa forma.

Tantos anos tentando ser compreendido causou grandes sequelas nesse artista, ao mesmo tempo que nos deu um grande presente: sua arte. A luta contra si mesmo e seus vícios quase o levou a morte, e Gustavo lutou por anos pela sua existência nesse mundo. É incrível ver ele hoje ressurgindo das cinzas e mostrando que sua genialidade nunca tem fim.

Com certeza, cada dúvida e inconformismo de Black Alien já fez parte de ti também, além da vivência; e se você não passou por isso, passará em algum momento, ou conhecerá alguém que sim. Temos um disco que infelizmente, ainda é muito atual. Fica a esperança de que um dia essa obra nos toque mais por sua arte do que pela dor de seus fatos.

A capa do disco, lançado em 2004.

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