“Transa” tem esse nome por mesclar não somente a língua inglesa e o português, mas por mesclar também sentimentos e gêneros musicais no maior estilo Tropicália que se tem notícia, dando uma injeção de energia baiana na melancolia londrina.

Maria Bethânia, irmã de Caetano, conseguiu uma permissão para a vinda do cantor de seu exílio até seu país de origem, para a celebração de 40 anos de casamento de seus pais. Esta breve visita ao Brasil deu a Caetano um novo fôlego e, na volta a Londres, convidou grandes nomes para se juntar a ele na produção impecável de seu sexto álbum de estúdio.

Caetano Veloso: Transa.

Lançado no ano de 1972, no período de exílio de Caetano em Londres por conta do cenário da ditadura militar, o disco é o segundo registro do artista na capital inglesa, mostrando todo seu envolvimento com a música brasileira, alguns elementos de pop, a escancarada influência de Beatles, Dorival Caymmi, baião, Tropicália, reggae e música europeia. Um disco curto, repleto de sentimentos diversos e intensos, muita história, citações inteligentíssimas e assertivas, arranjos virtuosíssimos e elementos surpreendentes.

O disco inicia com a incrível “You Don’t Know Me”, onde o eu lírico parece ter um dialogo revoltado com um gringo que nunca o entenderia na completude, até que a sua revolta é tanta, que ele fala em português: “Eu agradeço ao povo brasileiro, norte, centro, sul inteiro, onde reinou o baião”, finalizando em sua maestria. São elementos eletrônicos como guitarra, citando rítmica e poéticamente o baião brasileiro.

Logo em seguida temos “Nine Out Of Ten”, considerada pelo próprio Caetano sua melhor canção em inglês. Historicamente, é a primeira citação de reggae fora de seu país de origem. O cantor se apaixonou pelo gênero, passeando pelas ruas de Portobello, quando pediu a Moacyr Albuquerque, o baixista, que tentasse reproduzir a linha de baixo do reggae na música brasileira e foi sucesso.

A canção “Triste Bahia” vem fechando o lado A, inteira em português, intitulada por Caetano Veloso uma das preferidas do disco. Ela vem jogando versos de Gregório de Matos. Retrata a imensa saudade de casa, o cansaço, a desesperança. O repertório se torna quase cansativo por conta desta canção, que dura quase dez minutos, porém tem um contexto incrível. Um grito desesperado em sua língua nativa, com elementos musicais brasileiros, claramente uma das canções mais melancólicas e bonitas de todo o disco.

Abrindo o lado B vem “It’s A Long Way”, e toda a relação do cantor com o seu país que só fazia crescer em seu peito sonhador. É o retrato de sua breve visita ao Brasil, e a frase que carrega todo esse peso ecoa inúmeras vezes: “A renego de quem diz que o nosso amor se acabou, ele agora está mais firme do que quando começou”, porém a citação da banda Beatles mostra o quanto ele permanece comprometido com as mesclas e confuso com seus sentimentos.

Caetano Veloso.

Aí vem “Mora na Filosofia”, mais uma queridinha de Caetano, samba de Monsueto Campos de Menezes que tornou-se um som psicodélico e pesado com elementos incríveis de polirritmia, para falar da máxima: “Pra que rimar amor e dor?” Nessa época, no Brasil, os dois antônimos também flertaram, mas desta vez não deram as mãos, através do lema “quem ama não mata”.

E finalizando o lado B temos “Neolithic Man”, que contém os versos “Que tem vovó/Pelanca Só”, canto do pássaro sábia-da-mata, comum na Bahia, e faz com que ela se pareça a música mais confusa e diferente do disco. Enquanto que a última, “Nostalgia”, é um rock-blues e mostra influências claras de bandas como The Beatles e The Rolling Stones, bebendo mais na fonte das influências inglesas de Caetano que nos estilos e ritmos de música brasileira que tanto ama.

Sei que deve estar se perguntando: por que um disco que não tem hits tornou-se a maior obra de um artista e uma das mais emblemáticas de toda a música brasileira?

Para conceber “Transa”, Caetano passou por um período de melancolia, reprocessou aquele caldo cultural que gerou a Tropicália anos antes. Chamou virtuosos músicos amigos para criar uma experimentação estética ao vivo: Macalé (violão), Aureo (bateria), Moacir Albuquerque (baixo) e Tutty Moreno (percussão). Ele faz uma passagem pelas tradições musicais dessa terra de mistérios, inserindo aos poucos atabaque, berimbau de capoeira, samba, canto de roda, candomblé, “estrela do Norte”. Imagina juntar todas essas referências em um disco praticamente tocado ao vivo.

Transa é um grito de desespero londrinamente abrasileirado, exilado. Um subterfúgio para a dor que só um artista brasileiro seria capaz de produzir.

2 COMENTÁRIOS

  1. Sou suspeito pra falar do Transa, foi minha porta de entrada pra obra do Caetano, além “daquelas que tocavam nas novelas”… o que mais gostei no texto foi a pergunta: pq um disco sem hits é considerado por muitos do Caetano? Me atrevo a responder dizendo que esse disco envelheceu bem demais, é atual, tem impacto direto em muitas das coisas que ouvimos na MPB hj e na virada de 71 pra 72 painho já tava fazendo. Sem contar que eu nunca vi ninguém transformar a melancolia numa coisa tão potente como esse disco. Ir de João Gilberto à Stones, passando por Baião, desse jeito, só Caetano.

    • Muito obrigada querido! Justa resposta, nunca na historia um disco trouxe tanta versatilidade e se renovou por si só! É uma joia que temos de dar muito valor! Só caetano e sua alma tropicalista trariam essa beleza para nós de fato!

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