Indo na contramão do “gênero quarentena” que tem dominado o cenário musical, com lançamentos mais calmos que refletem o momento que o mundo vive, Cardi B e Megan Thee Stallion investem na verdadeira porrada que é “WAP” (abreviação de “wet-ass pussy“, cuja tradução eu nem preciso dizer). Porrada, porque além do beat que facilmente ganharia as pistas de dança ao redor do mundo, daqueles que são fáceis de identificar e fazem o corpo mexer já no primeiro segundo, a letra de “WAP” é excitante, explícita e muito divertida. Uma boa e revigorante “putaria“, se me permitem o palavrão.

De cara, “WAP” abre com o bass marcante que se mantém ao longo da track, e o sample de Frank Ski que o tempo todo afirma: “there’s some whores in this house“, um bom resumo para o que vem a seguir – no bom sentido, é claro. O beat é simples, talvez o ponto menos importante aqui, mas cumpre seu papel ao dar mais foco aos versos de Cardi e Megan, que dividem os três minutos de música discorrendo, sem o menor pudor, sobre o que as excita ou, como elas dizem, deixa suas pussy… molhadas.

WAP: Cardi B e Megan Thee Stallion no fabuloso clipe da faixa.

Claro, não é que a canção seja revolucionária por tratar de feminilidade e sexualidade de forma escancarada, mas é impossível não dar uma ou duas gargalhadas, se surpreender ou ser afetado, no bom ou no mau sentido, pela letra. Cardi B chega na fúria com linhas como “i want you to park that big Mack truck right in this little garage“, e a buzina de um caminhão marca o retorno do beat. Ou com a sacada da Megan Thee Stalion, que dá entender que manda “nudes” tão boas, que o cara comprou um celular só para armazená-las (“he bought a phone just for pictures of this wet-ass pussy“). Não dá para escolher uma linha só para citar, as duas estão pegando fogo no single.

E digo que dá para se afetar no mau sentido porque, obviamente, “WAP” irritou muita gente no público estadunidense, tanto no gênero do hip-hop quanto fora da cena. Afinal, ouvir rappers como Lil’ Wayne ou Snoop Dogg falarem incontáveis vezes sobre como gostam de transar e como amam vaginas, é de boa mas, quando isso é cantado por quem tem a vagina, não pode. E eu nem acho que a Cardi B esteja preocupada em ser um ícone feminista nessa música, e novamente, não é a primeira vez que o tema é abordado por mulheres – vide Lil’ Kim, Nicki Minaj, entre outras –  mas só de ser um hit de grandes proporções (com recordes na Billboard), e deixar até político desocupado de cabelo em pé, “WAP” já pode ser considerada marcante para o seguimento.

O público estadunidense de rap é bastante machista, então as impressões negativas do single não são surpresa nenhuma. Enquanto o gênero “ganha” nomes mais românticos, quase mocinhos, como Drake e seus pupilos, e outros que cansaram de serem explícitos tornam-se cristãos (alô Kanye West), parece absurdo para esses ouvintes mulheres em músicas populares, falando do que gostam ou não de fazer na cama.

E é sério, não tem nada para se pensar em “WAP”: é crua, na lata, um proibidão à la Valesca Popozuda mesmo (como na linha “i want you to touch that lil’ dangly thing that swing in the back of my throat“, que é espetacular!). E é por isso mesmo, que é um dos melhores singles de 2020 e o melhor trabalho da Cardi B em muito tempo.

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