Muita expectativa foi gerada em torno do que aconteceria com a cantora em termos comerciais, já que seus últimos lançamentos, incluindo seu último álbum “Witness” (2017), não atingiram o sucesso esperado.

Um dos possíveis motivos seria o desgaste normal que toda diva do pop passa (ou ainda vai passar) na fase dos 30 e poucos anos. Uma das perguntas que me fiz acompanhando os últimos lançamentos da artista foi: será que era realmente necessário uma das maiores cantoras do últimos anos continuar realizando uma serie de lançamentos que mercadologicamente se mostravam irrelevantes?

Talvez a estratégia mais “fácil” e “segura” seria sair um pouco de cena, esperar e tentar se manter relevante pelas glórias passadas, mas Katy Perry resolveu arriscar, e esse passo poderia levá-la de volta à glória das paradas de sucesso, ou a ostracismo total de uma era de decadência. Talvez a segunda opção fosse a mais provável para o grande público, mas Perry seguiu seus instintos e retornou com um álbum focado em agradar sua enorme e fiel fã base e a si mesma, e o novo trabalho cobre perfeitamente essa lacuna.

A faixa que abre o álbum, “Never Really Over” é excelente, arrisco dizer que a melhor do álbum. Nos tempos de glória da cantora, teria sem dúvidas dominado as paradas de sucesso ao redor do mundo. É dançante, radiofônica na medida certa, a letra é boa e o clipe lindo. A música foi lançada ainda em 2019 e a cantora volta a sua antiga fórmula de sucesso. É sim verdade que para os tempos atuais o mercado musical, essa fórmula que fez Katy atingir o ápice da carreira entre 2010 e 2014 não é mais tão eficiente. Os singles lançados até agora não tiveram números relevantes e a crítica mundial tem sido severa.

A segunda faixa, “Cry About It Later” talvez seja a música mais atual desse novo trabalho, é mais robótica, tem umas influências metais e as batidas ornam perfeitamente com letra, seria um futuro single perfeito. A próxima música, “Teary Eyes” tem até uma boa batida, mas no contexto geral do disco é uma das que menos chamam atenção. “Daisies”, lançada antes, foi apresentada para muitos como primeiro single do novo álbum, já que não sabíamos que os dois lançamentos anteriores entrariam na tracklist. É leve, solar, passa uma bela mensagem sobre seguir em frente, mas se não fosse single talvez passasse despercebida. “Resilient” talvez seja a música mais madura do álbum, é produzida pelo duo norueguês Stargate, os mesmo de “Firework” e inclusive tem uma mensagem parecida. Os vocais de Katy estão bem estruturados, as batidas são limpas e sem dúvidas é um dos destaques do álbum.

Katy Perry.

“Not the End of the World”, esse pop eletrônico motivacional, é uma mensagem para não perdemos as esperanças no mundo (missão impossível ultimamente). Claramente música lançada apenas para compor o disco. A faixa-título “Smile” foi uma das escolhidas como single, a música tem várias camadas e inicialmente parece ser feliz e divertida, mas a letra passa longe disso, com Katy colocando suas decepções para fora. Em tempos de glórias seria mais um das músicas que seriam hits fáceis e o clipe é excelente.

É muito importante destacar que por mais que as músicas não tenham tido desempenhos memoráveis nos charts, a videografia de Perry segue impecável. Todos os clipes lançados até agora são ótimos e bem produzidos.

Voltando ao álbum, seguimos para “Champagne Problems”, uma celebração de festa, um pop cheio de groove, que apesar de ser uma boa faixa, não chama muita atenção no contexto geral do álbum. Já “Tucked” é uma das melhores músicas do disco, de cara chama logo atenção. A letra fala sobre aquele amor que nunca sai da sua cabeça. Tem riff de guitarra, tem “nanana”, é divertida e sem dúvidas daria um excelente single. Já deu até para imaginar o clipe.

“Harleys In Hawaii” outra que foi lançada ainda em 2019, colaboração com o cantor Charlie Puth. Soa urbana e seria um hit excelente para o verão. Apesar de não ser nenhuma grande novidade, a batida é maravilhosa e a letra sobre uma viagem romântica para o Havaí é muito boa. Essa seria mais uma das músicas que seriam hits certos nas paradas de sucesso do ano. “Only Love” é uma balada de letra sombria e forte. É uma boa música, necessária para nossos tempos e que fala um pouco de como a cantora se sentiu nos seus momentos ruins. A última faixa do disco, “What Makes A Woman” foi lançada uma semana antes, a faixa anterior fecharia o disco de maneira muito melhor mas essa acabou sendo a escolhida. É uma música tranquila, uma balada sem muitas emoções.

É claro que as glórias passadas, principalmente da era “Teenage Dream”, provavelmente jamais serão superadas, mas os tempos mudaram e o mundo da música também, e por isso, mesmo fazendo um trabalho de boa qualidade, “Smile” soa repetitivo e acaba caindo na sina do “mais do mesmo”. Soa como se estivéssemos ouvindo um álbum de 10 anos atrás. Sempre deixando claro que as músicas passam longe de serem ruins, mas o estilo de Katy aparentemente não sofreu nenhum alteração ao longo desses anos, e talvez essa seja a maior falha dessa nova era: a falta de maturidade.

No geral, é um bom álbum, com belas mensagens sobre felicidade, superação e recomeço, e a cantora coloca suas dores para fora. É um prato cheio para os admiradores da cantora. Katy é uma das grandes divas do nosso tempo, e sempre nos fará sorrir, mesmo que o motivo do sorriso seja o mesmo de 10 anos atrás.

A belíssima capa de Smile.

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