A palavra que me vem à mente quando penso em Chloe x Hale, é “trabalho”. Isso porque as irmãs Bailey, de 22 e 20 anos, estiveram envolvidas em todo tipo de projeto ultimamente. Desde o seu debut, “The Kids Are Alright” (2018), as duas abriram shows para Jay Z e Beyoncé (que é produtora executiva da dupla),  cantaram no Super Bowl, foram indicadas ao Grammy, estrelam a sitcom “Grown-ish”, e ainda arranjaram tempo – sabe-se lá como – para escrever, produzir e co-produzir o seu segundo álbum de estúdio, “Ungodly Hour“.

Com relativo sucesso comercial e aclamado pela crítica, “Ungodly Hour” faz todo sentido dentro do que as garotas vêm construindo até aqui: imersas na música desde cedo,  Chloe e Hale ainda estavam sob a identidade “clean” no álbum anterior, quando eram menores de idade; ainda assim, absorveram com muita inteligência e graciosidade os anos trabalhando ao lado de artistas como a própria Beyoncé, que as inspira muito (sobretudo na fase Destiny Child), e finalmente puderam romper a barreira da “fase Disney” que viviam, trazendo um ar mais adulto para sua imagem e letras (“it’s four o’clock, you’re sending me too many pictures of your…“), além do óbvio amadurecimento musical – como o canto sem excessos e a produção bem mais refinada.

A capa de Ungodly Hour.

Talvez o maior traço de seu amadurecimento seja mesmo a produção, que conta por exemplo com Jake One e Scott Storch, nomes que por si só provam a qualidade do álbum.  Começando com a “Intro” e “Forgive Me“, um R&B enérgico com traços de trap, produzido (também) por Sounwave, que trabalha com Kendrick Lamar desde o começo da carreira e ganhou alguns Grammys pela parceria. Logo de cara “Ungodly Hour” é um espetáculo, seguido por “Baby Girl“, um dos melhores beats e vocais do LP, e pelo single Do It“, o maior sucesso comercial da dupla até agora, assinado por Storch, que produziu alguns dos maiores hits do início do século como “Still D.R.E.” e “Lean Back“. Em sua única contribuição com as irmãs, Scott faz arranjo perfeito da capacidade vocal delas, usando as vozes também como pequenos elementos da música, com frases, dobras e complementos aqui e ali que deixam a faixa gigantesca, além do beat, ponte e refrão impecáveis que tem.

E ainda sobre a produção, esta é quase toda assinada por Chole, a mais velha, enquanto as duas co-escreveram todas as 13 faixas do material. Uma rápida lida nos créditos já deixa claro como elas participaram efetivamente de tudo em “Ungodly Hour” – algo bastante difícil para artistas novas dentro de grandes selos. Quero dizer, por mais que estejam envolvidas em zilhões de coisas, atuando, cantando, fazendo shows etc, elas ainda têm tempo de garantir que toda música que cantem seja delas, e isso é realmente incrível. Logo depois de “Do It”, a faixa “Tipsy” mantém alto o padrão do projeto.

Mas o ponto fraco de “Ungodly Hour” é justamente ser tão gracioso e cristalino, caminhando numa linha que não permite erros – também por ser muito curto e direto. O álbum é coerente, mas tem momentos que deixam a desejar e é impossível não percebê-los. Por exemplo a faixa “Catch Up“, que conta com a única participação do material, o cantor Swae Lee, que definitivamente não está no mesmo nível vocal das Bailey, além da produção não ter nada a ver com o restante do álbum. Lançada antes do LP, a canção mais parece que foi encaixada de última hora, para fazer peso. “Overwhelmed” e “Lonely” logo recuperam o fôlego, mas a faixa “Wonder What She Thinks Of Me“, no finzinho, também parece mal encaixada. É uma boa música – apesar do tema novelesco sobre ser amante, – mas também parece correr por fora da proposta sonora do álbum como um todo.

Finalmente, “Ungodly Hour” termina com “ROYL” (Rest Of Your Life), faixa simples e repetitiva que é basicamente bass, piano e voz, mas que encerra com energia depois que a faixa anterior divaga um pouco o clima. Ao final dos 37 minutos de duração, o LP deixa aquele “gostinho de  quero mais”, que tem tudo a ver com a dupla. Se você gosta de Chloe x Hale e está ansioso como eu para saber o que vem por aí, podemos ficar tranquilos, afinal elas com certeza têm muito mais ótimos trabalhos pela frente, e esse aqui é uma prova sólida de que elas têm potencial e narrativa para evoluir muito nos próximos anos.