Enquanto planejava sobre qual álbum escrever nessa categoria de Clássicos, queria escolher um que refletisse muito do som que gosto atualmente, mas que também trouxesse lembranças da minha formação e experiências com música desde muito cedo, e acredito que poucos artistas são tão bem impressos no imaginário brasileiro, quanto o super astro Zeca Pagodinho, uma das poucas unanimidades nesse Brasil tão grande: ninguém não gosta de Zeca Pagodinho.

Por isso a resenha de hoje é do álbum de estreia do cantor, que tem como título “Zeca Pagodinho“, nome artístico de Jessé Gomes da Silva Filho. Lançado em 1986, numa época onde Zeca era apenas um jovem franzino que frequentava rodas de samba desde cedo pelos bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro, e que já tinha ganhado a admiração e amizade de conterrâneos como Arlindo Cruz e sua madrinha Beth Carvalho, que impulsionaram o sucesso do que viria a ser um dos artistas mais populares e aclamados dos últimos 40 anos.

Produzido por Milton Manhães e contando com as participações da cantora Ana Clara e do sambista Deni de Lima, o álbum foi um sucesso absoluto de crítica e vendas na época, colocando a voz do estreante Zeca até em trilha sonora de novela da TV Globo, com a faixa “Judia de Mim“, primeiro de muitos hits que se eternizaram no repertório muito vasto do artista.

Abrindo com “S.P.C.“, samba de Zeca e seu querido amigo Arlindo Cruz, o disco já nos apresenta uma música inconfundível: a letra, muito cômica, é um relato tipicamente suburbano, que ameaça sujar o nome de uma pessoa no S.P.C.. Seguindo, a faixa “Coração em Desalinho” é uma das que sobreviveu às três décadas desde seu lançamento e pode ser considerada um sucesso grandioso na carreira do músico. Até hoje, nas redes sociais, nas ruas, em churrascos ou seja onde for, a música é cultuada com muito respeito. Quem nunca se emocionou cantando “agora, uma enorme paixão me devora, alegria partiu, foi embora…”?

Jogo de Caipira“, composição de Hildemar Diniz e Ratinho, é uma música pouco conhecida mas que mantém o nível de bom samba do material, com o coral animado que acompanha o canto de Zeca durante os refrões. “Se Eu For Falar de Tristeza” é uma mensagem otimista sobre desapego que tem tudo a ver com o jeitão jocoso do Zeca: “se a mulher foi embora é que o amor acabou, se eu perdi um amigo, um outro ganhou“. Além disso, a flauta transversal que acompanha a faixa é espetacular, o solo no finzinho é simplesmente perfeito.

Quando Eu Contar (Iaiá)” dispensa apresentações. Eu sincamente não conheço uma pessoa que não saiba cantar, pelo menos, o refrão desse clássico aqui. “E quando vi o salário, que o pobre operário sustenta a família, fiquei assustado, Iaiá minha filha, montei no cavalo e voltei pra você…”. “Cheiro de Saudade“, com Ana Clara, é um momento mais romântico do trabalho, cantado com ternura por Zeca e a colega, que tem uma voz incrível. A letra também é muito bonita.

Voltando a levantar o astral, a segunda e última participação do álbum é do já falecido partideiro Deni de Lima, que acompanha Zeca nesse pout-pourri de partido alto, com as músicas “Hei de Guardar Teu Nome/Vou Lhe Deixar No Sereno/Macumba da Nêga“. Depois, “Casal Sem Vergonha” é outra faixa divertidíssima, que discorre a relação de um casal que vive entre os tapas e beijos: “Mesmo brigando esperamos por muitas visitas da dona cegonha.” Depois, “Quintal do Céu” é outro samba muito bonito, composição de Wilson Moreira e do grande Jorge Aragão – a letra é a cara das músicas do Aragão mesmo.

Cidade do Pé Junto” talvez seja a faixa mais fraca do álbum quase todo perfeito, mas que passa longe de ser ruim. “Judia de Mim“, citada anteriormente, foi sucesso na época e até hoje pode ser ouvida numa roda de samba próxima de você (“quem de paz de alimenta, se contenta com migalhas, não se aflige e corrige as próprias falhas“).

O álbum é concluído com outra composição icônica de Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço: “Brincadeira Tem Hora” também é lembrada até hoje nos shows do cantor e se tornou indispensável em seu repertório. O único problema é a qualidade da gravação, que é estranhamente inferior a de todas as outras faixas anteriores. Não sei dizer foi encaixada de última hora ou gravada em circunstâncias diferentes, mas não a impediu de se tornar uma das mais famosas do músico.

No saldo, depois de 42 ótimos minutos de duração e mais de trinta anos desde seu lançamento, “Zeca Pagodinho” é um álbum que envelheceu da melhor forma possível, o primeiro de uma discografia consistente quatro vezes vencedora do Grammy Latino. Zeca é um dos maiores na nossa música, um dos artistas mais fiéis ao seu som, suas origens e seu povo. Sucesso nas lives atualmente, que venham muitos mais anos dessa carreira brilhante e inspiradora. Viva Zeca Pagodinho!

Zeca Pagodinho (1986)

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